Reforma Tributária

Reforma tributária aumenta impostos? O que diz a lei e o que dizem os números

Resumo Rápido

A discussão sobre se a reforma tributária “aumenta impostos” ganhou força após o senador Flávio Bolsonaro defender, em 9 de junho, a suspensão por um ano das novas regras, sob o argumento de que a mudança elevaria a carga e agravaria efeitos da Curva de Laffer. Na avaliação do tributarista Lucas Ribeiro, ouvido pelo InfoMoney, essa associação não se sustenta quando se analisa apenas a reforma do consumo aprovada pelo Congresso. Segundo ele, o desenho constitucional do novo modelo foi feito para substituir tributos existentes por um sistema mais simples, sem objetivo de arrecadar mais.

Para além do embate político, documentos oficiais e estudos técnicos corroboram a visão de que a reforma não foi concebida como mecanismo de aumento automático de carga. Um estudo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, publicado em março de 2024, destaca que a Emenda Constitucional 132/2023 cravou, como premissa, que não haverá aumento da carga sobre consumo e criou uma “trava” que limita a arrecadação ao nível médio de 2012 a 2021 em relação ao PIB, sob os novos impostos CBS e IBS, que substituem PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI.

A reforma tributária aumenta a carga de impostos no Brasil?

A afirmação de que a reforma tributária “aumenta impostos” não encontra respaldo direto no texto constitucional nem nos principais estudos oficiais. A IFI afirma que o primeiro pilar da reforma é “não haver, sob hipótese alguma, aumento da carga tributária” sobre o consumo, com uma trava que impede que a arrecadação desses tributos ultrapasse a média de 2012 a 2021 como proporção do PIB, segundo estudo especial de março de 2024 do Senado (IFI).

O Ministério da Fazenda repete a mesma linha. Na página “Mitos e Verdades” da reforma, o governo afirma que a PEC 45/2019 tem “como premissa a manutenção da carga tributária total sobre o consumo” e prevê que, durante a transição, o Senado ajustará alíquotas de CBS e IBS justamente para manter o nível global de cobrança, sem ampliação estrutural de receitas (Ministério da Fazenda).

Por que especialistas dizem que não há relação direta com aumento de impostos?

Na entrevista ao InfoMoney, Lucas Ribeiro diferencia duas discussões: a da carga tributária total, realmente alta no Brasil, e a da reforma do consumo. Ele considera correta a crítica de que impostos elevados estimulam informalidade, em linha com a Curva de Laffer, mas afirma que isso vale para o sistema como um todo, não especificamente para a CBS e o IBS que substituirão tributos existentes.

O ponto central é que a reforma reorganiza impostos sobre consumo, sem criar, nesse campo, um tributo novo destinado a arrecadar mais. Ribeiro cita como exemplos de aumento efetivo de carga medidas recentes em IOF, mudanças na tributação de investimentos, debates sobre renda e encargo sobre a folha. Nesse sentido, ele argumenta que politizar a reforma como sinônimo de aumento generalizado desvia o foco das frentes onde de fato houve elevação de alíquotas ou base de incidência.

Como funciona a trava que limita a carga tributária sobre consumo?

A IFI descreve que, ao aprovar o texto da PEC 45/2019, o Senado inseriu uma trava explícita: a arrecadação dos tributos sobre consumo no novo modelo não poderá exceder, em relação ao PIB, o nível médio observado entre 2012 e 2021. Na prática, a calibragem da alíquota padrão de CBS e IBS deverá buscar neutralidade em relação à carga anterior (IFI).

No mesmo estudo, a IFI cita simulações da Secretaria de Reforma Tributária do Ministério da Fazenda. Em um cenário considerado “amplamente factível”, o governo trabalha com intervalo de 20,73% a 25,45% para a alíquota base, a depender do volume de regimes favorecidos. Outros exercícios, feitos por consultorias e acadêmicos, sugerem faixas entre 25% e 35%, com alguns cenários apontando até deficiência de arrecadação de R$ 6,1 bilhões, o que indica risco de perda, e não de aumento automático de carga.

A reforma cria novos impostos ou apenas substitui tributos existentes?

Do ponto de vista do consumo, o Ministério da Fazenda reforça que a reforma substitui cinco tributos — PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI — por dois: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios, formando um IVA dual de padrão internacional (Ministério da Fazenda).

Além deles, surge o Imposto Seletivo, de natureza extrafiscal, voltado a desestimular consumo de itens prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Um levantamento da Conta Azul lembra que as mudanças começam a valer em 2026, com alíquotas iniciais reduzidas de 0,9% (CBS) e 0,1% (IBS), evoluindo em transição até 2033, quando os tributos antigos serão totalmente extintos.

Em quais setores pode haver aumento ou redução efetiva de imposto?

A neutralidade é buscada no agregado, mas não impede que setores específicos vejam sua carga subir ou cair. A página oficial do governo cita que áreas como saúde, educação e alimentos básicos tendem a ter alíquotas reduzidas ou isenção, enquanto alguns segmentos de serviços podem perceber aumento de tributação, dependendo do regime atual e da estrutura de créditos (Ministério da Fazenda; Conta Azul).

No debate político, profissionais liberais — médicos, advogados, arquitetos, consultores — são apresentados como potenciais perdedores. Lucas Ribeiro contesta projeções de aumento de “40%” na carga. Ele ressalta que muitos atuam via Simples Nacional ou MEI, regimes que permaneceram com tratamento diferenciado na Constituição e não sofrem o impacto direto descrito em discursos de campanha, o que reduz a probabilidade de saltos abruptos para a maioria dessas atividades.

Reforma tributária e Curva de Laffer: há ligação prática?

Flávio Bolsonaro estruturou sua crítica na Curva de Laffer, segundo a qual tributos muito altos elevam sonegação e reduzem arrecadação. O tributarista ouvido pelo InfoMoney considera que o raciocínio faz sentido quando se observa a carga global brasileira, mas não quando se atribui esse efeito diretamente à reforma do consumo.

Ribeiro enumera outros pontos onde a Curva de Laffer seria mais evidente: aumento de IOF, encarecimento da folha salarial e maior tributação sobre renda e patrimônio. Ele defende que, se o objetivo é reduzir carga para estimular atividade, o instrumento é mexer nessas frentes, não interromper a substituição de tributos sobre consumo por um IVA dual. Ao confundir medidas distintas sob o rótulo de “reforma tributária”, o debate público perde precisão técnica.

Transparência e combate à sonegação: por que a reforma é citada como ferramenta?

Além da neutralidade de carga, outro argumento central dos defensores da reforma é a transparência. O Ministério da Fazenda destaca que o novo sistema elimina “resíduos tributários” — impostos em cascata embutidos nos preços de insumos — que hoje representam cerca de 12% do valor de produtos e serviços (Ministério da Fazenda).

Reforma tributária aumenta impostos? O que diz a lei e o que dizem os números

Na entrevista, Lucas Ribeiro afirma que, a partir de 2027, os consumidores terão consciência mais clara da carga de CBS, com indicação explícita do tributo na nota. Ao combinar crédito financeiro amplo, tributação no destino e alíquota única por ente, a CBS/IBS facilita fiscalização e reduz margens para sonegação. A reforma, nesse sentido, não é mecanismo de elevação imediata de impostos, mas de fechamento de brechas usadas há anos por empresas já acostumadas a driblar o fisco.

Como a alíquota do IVA brasileiro se compara a estimativas e a outros estudos?

O estudo da IFI compila diferentes simulações. Um trabalho do Banco Mundial, citado no relatório, estimou uma alíquota neutra de 29,01% para um IVA nacional, com intervalo entre 27,3% e 30,7%, considerando simplificações e manutenção de arrecadação. Já a análise interna da SERT/MF aponta faixa de 20,73% a 25,45% diante de concessões e regimes especiais (IFI).

Uma cartilha da Conta Azul menciona, por sua vez, referência de alíquota-padrão máxima de 26,5% para a maioria de bens e serviços. Escritórios jurídicos, como o Demarest, citam estudos privados que falam em alíquota entre 25% e 27,5%, o que preocupa empresários pelo impacto no preço aparente, embora alguns desses cenários sejam acompanhados de projeção de deficiência de arrecadação, o que reforça a ausência de relação direta com um aumento global de carga.

Fonte / EstudoFaixa estimada de alíquota padrãoObservação principal
Banco Mundial (citado pela IFI)27,3% a 30,7%Alíquota neutra de 29,01% para manter arrecadação atual
SERT/MF (via IFI)20,73% a 25,45%Cenário “amplamente factível” com regimes favorecidos
Estudos privados citados pela IFI25% a 35%Alguns indicam até déficit de arrecadação de R$ 6,1 bi
Guia Conta AzulAté 26,5%Referência máxima para maioria dos bens e serviços

O que muda na prática para o contribuinte e qual é o ponto cego do debate?

Na prática, a reforma redistribui quem paga quanto e quando, sem ter sido desenhada para, sozinha, reduzir ou ampliar a carga total. Alguns setores podem pagar mais; outros, menos; a sociedade passa a ver com nitidez o peso dos tributos sobre consumo. Essa transparência tende a deslocar a discussão política de slogans genéricos para escolhas concretas sobre regimes especiais, desonerações e tributação de renda e patrimônio.

O ponto cego, apontam especialistas, está justamente aí: ao focar a crítica na reforma do consumo, que contém mecanismos constitucionais de neutralidade, o debate adianta pouco na tarefa de decidir se o país quer, de fato, uma carga menor. Essa escolha passa por rever IOF, desonerar folha, redesenhar o Imposto de Renda e enfrentar subsídios ineficientes — temas mais difíceis, mas centrais para qualquer política séria de alívio tributário no médio prazo.

Última atualização: 10/06/2026.

Perguntas frequentes

A reforma tributária vai aumentar o preço da cesta básica?

De acordo com o Ministério da Fazenda, a reforma cria uma cesta básica nacional com alíquota zero de CBS e IBS para itens definidos em lei complementar. Na prática, a promessa oficial é de que a carga sobre esses produtos caia, e não suba, reduzindo o impacto sobre famílias de baixa renda.

Profissional liberal vai pagar 40% a mais de imposto com a reforma?

O tributarista Lucas Ribeiro afirma que essa estimativa de 40% não é verdadeira de forma generalizada. Ele lembra que muitos profissionais atuam no Simples ou MEI, regimes preservados com tratamento diferenciado, o que limita aumentos bruscos. Eventuais mudanças dependerão do regime e da estrutura de custos de cada atividade.

Quando a reforma tributária começa a valer na prática?

Segundo a Conta Azul, a transição se inicia em 2026, com alíquotas iniciais de 0,9% para CBS e 0,1% para IBS. Entre 2027 e 2033, os tributos antigos (PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI) são gradualmente extintos, até que o novo sistema esteja integralmente vigente.

O que é o IVA dual (CBS + IBS) previsto na reforma?

O IVA dual é a combinação da CBS, de competência federal, com o IBS, dos estados e municípios. Ambos incidem sobre bens e serviços, com regras harmonizadas, crédito amplo e tributação no destino. A ideia é substituir a multiplicidade de tributos atuais por dois impostos de base ampla e funcionamento mais simples.

A reforma tributária vai gerar inflação?

O governo argumenta que, ao eliminar tributos em cascata e simplificar a cobrança, a reforma reduz custos de produção, permitindo queda de preços. Economistas ressaltam, porém, que o efeito inflacionário dependerá da calibragem das alíquotas, da concorrência entre empresas e da forma como setores absorverem ou repassarem a nova carga.

Como a reforma afeta empresas optantes pelo Simples Nacional?

Empresas do Simples tendem a manter seu regime, com ajustes pontuais ainda a serem detalhados em lei complementar. Para muitas delas, a maior mudança será indireta, via fornecedores que passarão a operar sob CBS/IBS. O impacto líquido dependerá da cadeia em que a empresa está inserida.

A reforma resolve o problema da alta carga tributária no Brasil?

Não. A reforma do consumo busca simplificar e tornar mais transparente a cobrança, mantendo, em tese, a carga global nesse grupo de tributos. Reduzir a carga total exigiria decisões em outras frentes, como reforma do Imposto de Renda, desoneração da folha, revisão do IOF e cortes de gastos que permitam alívio permanente de alíquotas.

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Sobre o Autor: Formado em Ciências Contábeis pela UnB.
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Editor: João Carlos Silva

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